A sensação ao final de O Dublê é genuinamente simpática. Durante a sessão, o filme diverte, arranca sorrisos e envolve com uma energia leve e bem-intencionada. O problema é que essa empolgação não acompanha o espectador para fora da sala. É aquele tipo de entretenimento “gente boa”, que funciona enquanto acontece, mas se dissolve rápido na memória. Não incomoda, não ofende, mas também não marca.
A existência do filme se justifica como homenagem. David Leitch transforma sua experiência como dublê em um tributo claro ao trabalho invisível por trás das grandes produções. Nesse sentido, O Dublê cumpre seu papel com honestidade. Ainda assim, falta aquele passo além que transformaria o projeto em algo essencial. O filme soa mais como um passatempo de luxo do que como uma obra necessária dentro do gênero.
Narrativamente, o roteiro é frágil e assume isso sem muita resistência. A trama funciona apenas como fio condutor para piadas, perseguições e quedas calculadas. O mistério policial, que deveria sustentar a progressão dramática, rapidamente perde importância e vira quase um detalhe burocrático. Em vez de tensionar a história, ele existe apenas para justificar deslocamentos e encontros.
O tom é outro ponto que oscila. A mistura de ação, comédia romântica e metalinguagem até encontra momentos de equilíbrio, mas frequentemente se perde no meio do caminho. Há cenas em que o romance se estende além do necessário, quebrando a urgência da ação, enquanto outras tentam brincar com o próprio cinema sem aprofundar a ideia. Nada chega a ser desastroso, mas o filme parece sempre a um ajuste fino de funcionar melhor.
Ryan Gosling entrega exatamente o que se espera dele: carisma, timing cômico e presença. O problema é justamente esse conforto excessivo. Não há risco, nem variação significativa. Emily Blunt é eficiente e carismática, mas o roteiro frequentemente a empurra para o papel de suporte emocional, mesmo quando a personagem demonstra potencial para mais protagonismo.
Na direção, David Leitch conhece o terreno que pisa, mas opta por uma abordagem visual limpa demais. Falta certa crueza, aquela sensação de perigo físico que poderia diferenciar o filme de outros blockbusters recentes. O ritmo sofre no segundo ato, com uma duração que se estende além do necessário para uma história tão simples.
Onde O Dublê realmente brilha é na parte técnica. As cenas de ação prática são revigorantes, bem coreografadas e carregadas de respeito ao trabalho dos dublês. É ali que o filme encontra sua identidade mais forte. No fim, fica a impressão de um tributo honesto e carismático, que só não alcança voos maiores por falta de ambição narrativa.
Nota 3/5
O Dublê (The Fall Guy)
Data de Estreia no Brasil: 2 de maio de 2024
Direção: David Leitch
Elenco: Ryan Gosling, Emily Blunt, Aaron Taylor-Johnson, Hannah Waddingham, Winston Duke
