Ao final de Furiosa, a sensação foi de admiração fria. Existe empolgação técnica, respeito absoluto pela escala da produção e pela clareza com que tudo é encenado, mas falta aquele choque emocional que define os grandes filmes do universo Mad Max. O impacto está ali, calculado, monumental, porém raramente visceral. Sai-se impressionado com o que foi visto, não exatamente transformado por ele.
Como obra, Furiosa: A Mad Max Saga funciona mais como uma expansão luxuosa de um universo que já parecia completo. É um grande glossário do Wasteland, interessado em explicar territórios, rotas, hierarquias e disputas de poder. Tudo isso é curioso e bem construído, mas a sensação persiste: a Furiosa vivida por Charlize Theron já havia contado tudo o que realmente importava — sem precisar dizer quase nada.
A trajetória da personagem é sólida, mas esticada. A divisão em capítulos tenta criar um tom de mitologia oral, como se estivéssemos ouvindo uma lenda antiga, mas esse recurso quebra o fluxo narrativo. O roteiro sustenta a longa duração, porém com concessões. Em vários momentos, dá para sentir que a história poderia ser mais enxuta para preservar a urgência que sempre foi a alma desse mundo.
O tom segue consistente, embora menos operístico do que se espera. A sobrevivência imediata dá lugar a uma narrativa de vingança paciente, quase contemplativa. É uma escolha clara e coerente, mas que dilui aquela energia punk, suja e desesperada que fazia Estrada da Fúria parecer um filme prestes a explodir a qualquer segundo.
Nas atuações, quem realmente injeta vida nova é Chris Hemsworth. Seu vilão é carismático, imprevisível e multifacetado, talvez o mais interessante da saga. Anya Taylor-Joy entrega uma Furiosa física, expressiva e silenciosa, competente dentro da proposta, mas que depende muito mais do entorno do que da força dramática individual.
Na direção, George Miller continua filmando ação melhor do que quase todo mundo em Hollywood. A clareza espacial e o domínio do caos seguem exemplares. Ainda assim, o filme soa mais como um eco refinado do próprio legado do que como um novo salto criativo. Visualmente, é um espetáculo, mas o uso mais evidente de CGI — com cores artificiais e cenários digitais — reduz aquela sensação tátil de suor, poeira e metal que definia o universo.
Furiosa é cinema de altíssimo nível técnico, feito para quem aprecia construção de mundo e engenharia narrativa. Um grande filme, sem dúvida. Só não é um filme que machuca.
Nota 3.5/5
Furiosa: Uma Saga Mad Max (Furiosa: A Mad Max Saga)
Data estreia Brasil: 23 de maio de 2024
Diretor: George Miller
Elenco: Anya Taylor-Joy, Chris Hemsworth, Tom Burke, Alyla Browne, Nathan Jones.
