O novo filme de Clint Eastwood reafirma que, aos noventa e tantos anos, ele ainda sabe contar uma história com rigor e sobriedade. Jurado Nº 2 funciona como um exercício de narrativa econômica: claro, ensaiado com precisão, sem excessos, sem floreios desnecessários, quase uma aula de cinema que privilegia a linha reta da ação dramática. Ao sair da sala, fica a admiração clássica, temperada por distância analítica. A experiência é respeitosa e digna, mas sem o arrebate emocional que alguns esperavam.

O filme se justifica menos por necessidade de inovar e mais como reafirmação de um estilo. Ele não reinventa o thriller judicial, nem pretende. Em vez disso, firma-se como um lembrete de que a simplicidade, quando bem executada, ainda tem força no cinema atual. A trajetória aqui não é disruptiva, mas é sólida, e isso já é, por si só, um feito no trabalho de um cineasta veterano que sempre privilegiou a clareza moral.

A história coloca um protagonista no centro de um dilema ético clássico: acusado de um crime que nega e dependente de um sistema judicial que o pressiona, ele precisa lutar por sua própria verdade. O roteiro sustenta esse conflito com precisão, mas não escapa da previsibilidade. Os caminhos pelos quais o personagem passa são próximos demais do que o gênero já explorou antes, e isso reduz a sensação de risco. O ponto forte não é a surpresa narrativa, mas a maneira como a angústia moral é tratada com economia e foco.

O tom do filme segue essa linha de sobriedade quase didática. Em alguns momentos, a narrativa parece explicar demais os trâmites do júri, o que pode soar um pouco pedagógico para o espectador mais atento. Ainda assim, essa consistência evita que o filme se perca em digressões ou em floreios que desviem do centro dramático. É um tom que respeita a inteligência do público, ainda que se mantenha restrito a um registro seguro e tradicional.

Nas atuações, Nicholas Hoult se destaca por sua capacidade de traduzir a culpa silenciosa e a pressão crescente do personagem com naturalidade. Ele sustenta o filme de forma eficaz, mesmo quando o roteiro caminha por terrenos conhecidos. Toni Collette também entrega uma performance sólida, conferindo gravidade e textura a cenas que poderiam facilmente escorregar para o óbvio.

A direção de Eastwood é a expressão de uma mão experiente que não precisa chamar atenção para si. Não há artifícios extravagantes ou escolhas formais chamativas, apenas uma clareza narrativa que coloca o foco nos atores e no texto. Esse controle narrativo é reconfortante, porém tende a ficar dentro de um espectro tradicional que já vimos antes em sua filmografia.

O ritmo acompanha essa proposta: o filme flui de forma orgânica, sem sobressaltos. A tensão vai crescendo gradualmente, movida pela necessidade de saber como o protagonista lidará com o dilema que enfrenta. Não há pressa, e isso funciona, principalmente para quem aprecia dramas judiciais clássicos.

Visualmente, a estética é discreta e funcional: a fotografia não quer ser protagonista, apenas iluminar a fragilidade humana no centro do conflito. A montagem é clássica e transparente, priorizando a clareza das informações sem chamar atenção para si mesma.

Jurado Nº 2 funciona melhor para quem sente falta de um cinema que valoriza a narrativa e a moralidade sem precisar de explosões dramáticas. É uma obra que reafirma as virtudes de um estilo clássico, mesmo que não atinja os picos emocionais de grandes thrillers do gênero.

Nota 3,5/5

Jurado Nº 2 (Juror #2)

Estreia no Brasil: 22 de agosto de 2024

Diretor: Clint Eastwood

Elenco: Nicholas Hoult, Toni Collette, Don Johnson, Zoey Deutch, Kiefer Sutherland.