Ao final de Horizon: An American Saga – Capítulo 1 senti uma sensação dupla e conflitante: respeito genuíno pela ambição e um cansaço difícil de ignorar. O que se vê na tela é claramente apenas o prólogo de algo muito maior. Existe admiração pela escala do projeto e pela coragem de bancá-lo, mas, após três horas de projeção, a frustração aparece porque a experiência termina antes de realmente se estruturar como filme completo.
A existência do longa se justifica menos pela lógica da indústria e mais pela do próprio gênero. Horizon: An American Saga – Capítulo 1 nasce como um projeto de paixão, quase uma missão pessoal de Kevin Costner para devolver ao western clássico a escala épica que ele perdeu no cinema contemporâneo. Há, sim, um flerte evidente com a vaidade autoral, mas isso não invalida o gesto. Em um mercado dominado por franquias autoconscientes e ironia constante, Horizon se leva a sério — e isso, hoje, já é algo raro.
O maior problema está no roteiro. A narrativa funciona essencialmente como uma longa introdução, fragmentada em múltiplas tramas que levam tempo demais para começar a dialogar entre si. O filme não se sustenta sozinho; ele depende completamente da promessa dos próximos capítulos para fazer sentido. Personagens surgem, conflitos são sugeridos e situações são armadas, mas quase nada se resolve. A sensação constante é a de assistir aos primeiros episódios de uma série de altíssimo orçamento, e não a um longa-metragem com arco próprio.
O tom, por outro lado, é extremamente consistente. Costner abraça o western clássico com convicção, evocando diretamente o romantismo e a brutalidade do cinema de John Ford. Não há tentativa de atualizar o gênero com cinismo ou comentários metalinguísticos. O filme acredita no mito da expansão do Oeste ao mesmo tempo em que expõe sua violência estrutural. Esse compromisso estético, hoje fora de moda, é um de seus maiores méritos.
As atuações acompanham essa proposta de forma funcional. O elenco é vasto e competente, mas muitos personagens ainda são apenas esboços. Costner demora a entrar em cena e, quando aparece, atua mais como símbolo e guia do projeto do que como protagonista dramático efetivo. Sienna Miller e Abbey Lee conseguem imprimir alguma força emocional em meio à dispersão narrativa, mas também ficam reféns da promessa de desenvolvimento futuro.
Na direção, Costner demonstra domínio absoluto da escala, mas falha em autoeditar o próprio material. Falta um olhar mais crítico para cortar, condensar e dar ritmo. O filme é lento, contemplativo e frequentemente disperso, exigindo paciência constante do espectador. Visualmente, porém, o resultado é incontestável. A fotografia de J. Michael Muro é grandiosa, explorando as paisagens naturais de Utah com imponência rara no cinema atual. O desenho de produção e os figurinos reforçam a sensação de um épico físico, palpável, feito de terra, suor e sangue.
Horizon: An American Saga – Capítulo 1 é imperfeito, pesado e estruturalmente incompleto, mas também é um filme necessário dentro do gênero. Não convence plenamente como obra isolada, porém impõe respeito como projeto. Resta saber se os próximos capítulos transformarão essa longa promessa em um verdadeiro épico clássico ou se tudo ficará restrito a um belo — e excessivamente longo — prólogo.
Nota 3/5
Horizon: An American Saga – Capítulo 1 (Horizon: An American Saga – Chapter 1)
Data de Estreia no Brasil: 15 de novembro de 2024
Diretor: Kevin Costner
Elenco: Kevin Costner, Sienna Miller, Sam Worthington, Abbey Lee, Jena Malone.
