Armadilha nasce de uma premissa brilhante e morre tentando sustentá-la além do que ela aguenta. A sensação predominante ao fim é de frustração misturada com surpresa moderada. O filme começa com uma energia promissora, quase empolgante, mas aos poucos se revela um “quase grande filme”. Existem lampejos claros do talento de Shyamalan para alto conceito, porém a execução irregular transforma o que poderia ser um thriller memorável em um exercício de estilo incompleto.
A existência do projeto se justifica apenas no campo das ideias. Armadilha funciona como conceito de curta-metragem esticado artificialmente para longa. Enquanto a história permanece confinada à arena do show, o filme encontra propósito, tensão e identidade. Quando decide expandir esse espaço, a narrativa perde força e expõe suas fragilidades estruturais. A sensação é de que a ideia se esgota muito antes dos créditos finais.
O roteiro é o ponto mais problemático. A dinâmica do assassino preso no próprio plano sustenta o primeiro ato com eficiência. A partir do momento em que a trama começa a depender de coincidências absurdas e decisões ilógicas de personagens secundários, o filme entra em queda livre. A suspensão de descrença é testada repetidas vezes. Shyamalan já foi mais rigoroso com suas engrenagens narrativas, e aqui parece confiar demais na boa vontade do espectador.
O tom também sofre com indefinição. O filme oscila entre um thriller psicológico sério e um jogo de gato e rato quase pulp. Essa instabilidade tonal faz com que cenas que deveriam gerar tensão acabem soando estranhas ou involuntariamente cômicas. Falta clareza sobre qual experiência está sendo proposta. O resultado é um suspense que nunca encontra uma frequência emocional estável.
Nas atuações, o destaque absoluto é Josh Hartnett. Ele sustenta o filme com uma performance que equilibra charme, ameaça e fragilidade, mesmo quando o roteiro o coloca em situações pouco críveis. Sem ele, o filme provavelmente desmoronaria por completo. O elenco de apoio, no entanto, sofre com diálogos engessados e atuações artificiais, algo recorrente na fase mais recente do diretor.
Na direção, M. Night Shyamalan ainda demonstra domínio técnico do espaço e da encenação, mas parece preso a uma rigidez excessiva. A arena do show é bem estabelecida visualmente, porém a câmera raramente cria a claustrofobia real que o título sugere. Tudo é calculado demais, limpo demais, o que enfraquece a sensação de perigo iminente.
O ritmo acompanha essa curva descendente. O primeiro ato prende, o segundo começa a se arrastar e o terceiro tenta se reinventar quando já é tarde demais. O momento em que a ideia central cansa é claramente perceptível. A partir dali, o filme perde urgência e passa a girar em falso.
Tecnicamente, Armadilha é competente. A fotografia é funcional e a montagem organiza bem a geografia do espaço, mas falta impacto. A arena nunca se torna um personagem vivo. A armadilha existe no conceito, não na sensação.
No fim, Armadilha se dirige quase exclusivamente aos fãs mais fiéis do diretor. Para o público geral em busca de um thriller sólido e lógico, a experiência tende a frustrar. É um filme que confirma que boas ideias precisam de estruturas igualmente fortes para sobreviver.
Nota 2,5/5
Armadilha (Trap)
Estreia no Brasil: 8 de agosto de 2024
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Josh Hartnett, Ariel Donoghue, Saleka Shyamalan, Hayley Mills, Alison Pill.
