A Vida de Chuck se apresenta como um filme que prefere ser contemplado a ser sentido. A proposta é clara desde o início: falar sobre tempo, memória e finitude a partir de uma estrutura fragmentada, quase ensaística. O resultado desperta admiração contida e um certo estranhamento. Entende-se o que o filme quer dizer, respeita-se a ambição, mas a experiência raramente alcança o estômago. Fica a impressão de um experimento de sensibilidade mais preocupado em ser reconhecido do que vivido.

Como adaptação, o filme existe menos por necessidade narrativa e mais como afirmação autoral. A Vida de Chuck soa como um projeto em que Mike Flanagan busca provar sua capacidade de transitar para o lirismo existencial. É uma curiosidade relevante dentro da filmografia do diretor, mas dificilmente uma obra essencial. Há intenção, há cuidado, porém falta a urgência que transforma um conceito elegante em cinema realmente marcante.

A estrutura fragmentada — com a história contada de trás para frente — é interessante no papel, mas cria um obstáculo emocional no cinema. A conexão com o protagonista se torna abstrata, quase intelectualizada. Em vez de acompanhar uma vida, o espectador observa uma ideia sobre a vida. Em vários momentos, a técnica chama mais atenção do que a emoção, o que reforça a sensação de distância e reduz o impacto dramático.

O tom busca lirismo constante, mas escorrega com frequência para um sentimentalismo excessivamente polido. Há passagens que soam como “autoajuda cinematográfica”, sublinhando emoções que poderiam emergir com mais força se houvesse menos explicação e mais silêncio. A doçura permanente acaba suavizando demais temas que pediam alguma aspereza, afastando quem prefere uma abordagem mais direta sobre vida e morte.

As atuações seguem essa lógica de contenção. Tom Hiddleston é carismático, mas o papel exige uma passividade que limita sua expressividade. Ele funciona como presença simbólica mais do que como motor dramático. O elenco de apoio cumpre bem suas funções, mas todos parecem servir a um desenho temático maior, com pouco espaço para individualidade ou brilho próprio.

Na direção, Flanagan demonstra controle e clareza de intenção, mas repete um vício conhecido: o excesso de sublinhado emocional. Trilha sonora e monólogos surgem para garantir que o público sinta exatamente o que foi planejado, o que compromete a organicidade. A divisão em atos distintos, embora conceitualmente coerente, quebra a fluidez e faz o filme parecer recomeçar várias vezes.

O ritmo sofre com essa estrutura. A contemplação prolongada e a sensação de reinício constante tornam a experiência mais longa do que o necessário. Visualmente, o filme é correto e funcional, com escolhas que servem ao tema da memória, mas sem imagens realmente arrebatadoras que sustentem o distanciamento emocional imposto pela forma.

A Vida de Chuck funciona melhor para um público muito específico: fãs do diretor e de dramas metafísicos pacientes. Para o público geral — e até para quem espera algo mais visceral —, pode soar pretensioso ou simplesmente distante. É um filme que se admira mais do que se ama.

Nota 3/5

A Vida de Chuck (The Life of Chuck)

Estreia no Brasil: 4 de setembro de 2025

Diretor: Mike Flanagan

Elenco: Tom Hiddleston, Chiwetel Ejiofor, Karen Gillan, Mark Hamill, Jacob Tremblay.