Confesso que quando terminei de assistir Um Tira da Pesada: Axel Foley sento uma indiferença cansada. Não há empolgação, não há riso genuíno, tampouco aquele conforto honesto que a nostalgia bem trabalhada costuma oferecer. Fica a pergunta incômoda: por que fizeram isso? O filme parece a tentativa de esticar um cadáver criativo, apostando que o carisma do passado ainda basta para justificar a existência no presente.

Não precisava existir. O retorno de Axel Foley não nasce de uma urgência narrativa ou artística, mas de uma decisão claramente mercadológica. Um Tira da Pesada: Axel Foley funciona como produto de catálogo, desenhado para ativar memórias afetivas sem o menor interesse em construir algo novo. Não há conflito que peça essa volta, nem uma ideia que justifique revisitar o personagem além do reconhecimento imediato do nome.

O roteiro é o maior sintoma desse esvaziamento. Dependente de referências, músicas icônicas e aparições de personagens clássicos, a história se apoia em clichês genéricos de “investigação policial de streaming”. Sem o verniz da nostalgia, a trama seria indistinguível de qualquer filme de ação descartável. Tudo soa preguiçoso, previsível e perigosamente automático.

O tom tenta replicar a fórmula antiga, mas sem a ousadia que fez o original funcionar nos anos 80. O humor é inofensivo, domesticado, preso a um passado que não se atualiza. A ação segue o mesmo caminho: correta, mas sem identidade. O filme não consegue ser uma homenagem sincera nem um produto moderno que dialogue com o presente. Fica preso num meio-termo estéril.

Nas atuações, o desgaste é evidente. Eddie Murphy ainda tem carisma, mas atua no automático. A energia que fazia Axel Foley parecer imprevisível e vivo simplesmente não está mais ali. Ele parece cumprir contrato, não viver o personagem. Os coadjuvantes — incluindo os veteranos — surgem como figurantes de luxo, presentes apenas para legitimar o selo de “sequência oficial”.

A direção é burocrática em todos os níveis. Falta estilo, falta tempo cômico, falta personalidade. Tudo é filmado com aquela estética genérica e artificial típica de produções da Netflix, onde nada parece sujo, perigoso ou espontâneo. A textura urbana vibrante dos filmes originais desaparece sob uma luz plana e digital.

O ritmo acompanha essa apatia geral. Apesar de ser um filme de ação, ele se arrasta. Como não há risco real nem surpresa narrativa, a previsibilidade cansa rápido. Em vários momentos, a vontade de pausar ou checar o celular é maior do que o interesse em saber como a história vai terminar — porque o final já está dado desde os primeiros minutos.

Um Tira da Pesada: Axel Foley funciona apenas para um público muito específico: quem aceita qualquer “comfort movie” desde que traga rostos conhecidos. Para o resto, é a prova de que nostalgia, sem propósito, não sustenta um filme.

Nota 2/5

Um Tira da Pesada: Axel Foley (Beverly Hills Cop: Axel F)

Data de Estreia no Brasil: 3 de julho de 2024

Diretor: Mark Molloy

 Elenco: Eddie Murphy, Judge Reinhold, John Ashton, Taylour Paige, Joseph Gordon-Levitt.