A sensação que fica ao final de Super/Man: A História de Christopher Reeve não é a de ter assistido a um documentário sobre um ícone, mas a de sair da sessão mais consciente da própria fragilidade. Admiração e inspiração caminham juntas, mas nunca sozinhas. O peso da realidade se impõe com força, daqueles que fazem valorizar a saúde, a família e o tempo, sem necessidade de sublinhados dramáticos.

A existência do filme é plenamente justificada porque ele faz o movimento mais difícil quando se trata de figuras mitológicas: desmonta o pedestal. Christopher Reeve deixa de ser apenas o Superman de mármore para se tornar pai frustrado, marido vulnerável, homem com medo do futuro. O documentário entende que humanizar não é diminuir, é aproximar. Ao organizar sua trajetória de forma definitiva, especialmente para novas gerações, o filme encontra seu maior valor narrativo e histórico.

O roteiro acerta em cheio ao adotar uma estrutura não linear. O vai e volta no tempo cria um contraste permanente entre potência física e paralisia, entre o homem que voava nas telas e aquele que precisava reaprender a existir. Essa escolha evita a armadilha da “lista de conquistas” e transforma a história em algo vivo, pulsante, sempre em tensão. É um recurso simples, mas usado com inteligência e sensibilidade.

O tom caminha perigosamente perto do melodrama, mas raramente cruza essa linha. A emoção está ali porque os fatos exigem, não porque a trilha ou a montagem forçam o choro. Existe honestidade na forma como o documentário se ancora na realidade, confiando que a história de Reeve é forte o suficiente para se sustentar sozinha.

Os depoimentos são o coração do filme. Will, Matthew e Alexandra falam com uma franqueza rara, expondo amor, frustração e dor sem verniz. A amizade com Robin Williams surge com uma pureza quase desconcertante, lembrando que afeto genuíno ainda existe mesmo dentro de Hollywood. Nada soa ensaiado, nada parece calculado.

A direção de Ian Bonhôte e Peter Ettedgui é funcional e respeitosa. Não há tentativa de assinatura autoral chamativa, e isso joga a favor do filme. É o chamado “documentário correto”, mas feito com cuidado estético, boa curadoria de imagens de arquivo e uma edição que sabe respirar. Talvez pudesse ser dez minutos mais curto, mas o ritmo nunca chega a comprometer a experiência.

Super/Man não é apenas para fãs de quadrinhos. É um filme sobre a condição humana, sobre perder tudo e ainda assim tentar seguir em frente. Um documentário forte, sensível e necessário, que não busca santificar, mas compreender.

Nota 4/5


Super/Man: A História de Christopher Reeve (Super/Man: The Christopher Reeve Story)
Data de Estreia no Brasil: 17 de Outubro de 2024
Direção: Ian Bonhôte, Peter Ettedgui
Elenco: Christopher Reeve, Will Reeve, Matthew Reeve, Alexandra Reeve, Robin Williams