Silvio chega à tela com uma promessa de revisitar um ícone da cultura brasileira — e logo falha ao transformar esse potencial em algo que realmente envolva quem assiste. Em vez de um retrato cinematográfico contundente, o filme entrega uma reconstrução rasa e protocolar. O distanciamento emocional não é apenas um efeito colateral: ele é o núcleo de uma experiência que parece mais calculada para preencher um espaço de catálogo do que para se afirmar como narrativa significativa.
A produção se justifica apenas como um produto de marca, algo que tenta capitalizar sobre a imagem de Silvio Santos sem lhe fazer justiça. Silvio cria a expectativa de uma cinebiografia robusta, mas acaba reduzindo a trajetória de um dos maiores comunicadores do país a eventos conhecidos e superficiais. Onde poderia haver profundidade, há articulação mecânica de fatos; onde podia haver humanidade, há repetição de cenas que o público brasileiro já viu inúmeras vezes em documentários ou na própria televisão.
O roteiro é protocolar e raso. Ao usar o sequestro de Patrícia Abravanel como moldura para flashbacks, o filme tenta construir uma narrativa dramática, mas a estrutura não sustenta um investimento afetivo real. Os eventos se encadeiam sem peso emocional, e a sensação predominante é de que a história está sendo apenas listada em vez de vivida. Não há tempo para que a audiência se conecte verdadeiramente com o homem por trás da lenda.
O tom do filme oscila sem identidade clara. Em alguns momentos, parece buscar a intensidade de um thriller de sequestro; em outros, se perde em homenagens póstumas antecipadas. Essa indecisão transforma cenas que deveriam gerar tensão ou reflexão em algo monótono e arrastado. A tentativa de agradar a diferentes públicos — fãs, curiosos, nostálgicos — desemboca em um híbrido sem alma, incapaz de emocionar ou criar qualquer urgência dramática.
Na frente das câmeras, Rodrigo Faro tenta se desvencilhar da caricatura, mas seu desempenho é prejudicado por uma maquiagem e uma encenação que mais confundem do que transformam. Em vez de ver o homem por trás da figura, o espectador enfrenta uma imitação que beira o bizarro. Essa escolha estica ainda mais a distância emocional, fazendo com que a empatia com o protagonista nunca se estabeleça.
A direção, por sua vez, é burocrática e invisível. Não há uma marca autoral ou uma maneira cinematográfica de contar essa história além de uma sucessão de planos que parecem pensados para não incomodar. A sensação é de estar assistindo a uma reconstituição televisiva de baixo orçamento — com ritmo episódico, transições previsíveis e um fôlego que raramente se eleva ao nível do cinema.
Visualmente, o filme reforça essa impressão. A fotografia plana e a arte artificial enfatizam a artificialidade da proposta. A estética de “especial de TV mal produzido” é constante — desde cenários até figurinos que não ajudam a criar uma atmosfera convincente. Tudo parece falso, fixado na superfície, sem textura ou densidade.
Silvio é um produto que dificilmente encontra público. Mesmo fãs ardorosos da trajetória do comunicador podem sentir que essa cinebiografia trata sua figura com descuido e superficialidade. Mais do que uma homenagem, o resultado é uma redução da grandeza de um personagem culturalmente incomparável.
Nota 1/5
Silvio (2024)
Estreia no Brasil: 5 de setembro de 2024
Diretor: Marcelo Antunez
Elenco: Rodrigo Faro, Paulo Gorgulho, Polliana Aleixo
