Setembro 5 escolhe um caminho preciso e nada confortável: observar uma tragédia histórica não pelo impacto direto da violência, mas pelos bastidores de quem a transformou em transmissão ao vivo. Ao restringir o olhar à sala de controle da emissora americana durante os Jogos Olímpicos de 1972, o filme estabelece desde cedo uma posição clara — o foco não está no evento em si, mas na mecânica, na exaustão e nas decisões morais tomadas sob pressão extrema.
A existência do filme se justifica justamente por esse recorte. Setembro 5 não é apenas “mais um filme sobre Munique”, e sim um estudo sobre o nascimento do jornalismo de crise em tempo real. Ao discutir imagem, responsabilidade e velocidade da informação, o longa preenche uma lacuna pouco explorada no cinema: a ética da cobertura ao vivo quando ainda não existiam protocolos claros para lidar com o horror sendo exibido em tempo real para o mundo inteiro.
O roteiro aposta em uma narrativa precisa e contida. Manter a ação quase exclusivamente dentro da sala de controle é uma decisão inteligente para gerar claustrofobia e tensão constante, mas também impõe limites claros. O espectador entende racionalmente a gravidade do que acontece fora daquele espaço, porém raramente sente isso de forma visceral. O texto está mais interessado na engrenagem da transmissão do que nas consequências humanas diretas, o que cria uma experiência mais cerebral do que emocional.
O tom acompanha essa escolha. Setembro 5 funciona como um thriller jornalístico sóbrio, avesso a melodrama e manipulação emocional fácil. Essa contenção é admirável, mas também gera distanciamento. A sobriedade constante, embora coerente com o ambiente profissional retratado, pode afastar o espectador que espera um impacto mais direto ou uma catarse dramática tradicional.
As atuações seguem a mesma lógica de precisão técnica. Peter Sarsgaard e John Magaro estão muito bem, entregando performances controladas, secas e extremamente funcionais. Não há espaço para grandes explosões emocionais, o que combina com a ideia de profissionais tentando manter o controle enquanto o mundo desmorona ao redor. O resultado são atuações eficazes, embora menos memoráveis do que impactantes.
Na direção, Tim Fehlbaum demonstra domínio absoluto do espaço e do tempo. A câmera é posicionada para sufocar, os enquadramentos reforçam a sensação de confinamento e a mise-en-scène extrai tensão de monitores, cabos e decisões aparentemente banais. Ainda assim, o filme se apoia fortemente no dispositivo do “tempo real” e no peso do fato histórico para sustentar o interesse, o que pode soar um pouco mecânico para alguns.
O ritmo é um dos pontos mais fortes. A urgência nunca desaparece e a sensação de corrida contra o tempo é constante. O filme não se torna repetitivo, mas a manutenção prolongada dessa mesma nota de tensão pode ser exaustiva. Visualmente, o trabalho técnico é impecável: grão de imagem, design de produção e uso do som transportam imediatamente para 1972. O jogo entre telas, transmissões e silêncio é o grande diferencial da obra.
Setembro 5 é um filme que respeita seu público e confia na inteligência do espectador. Funciona especialmente bem para jornalistas, cinéfilos e interessados em história política. Para o público geral, pode parecer específico demais. Ainda assim, é um retrato sólido e necessário sobre quando informar passou a significar, também, assumir responsabilidade.
Nota 3.5/5
Setembro 5 (September 5)
Data de Estreia no Brasil: 30 de janeiro de 2025
Diretor: Tim Fehlbaum
Elenco: Peter Sarsgaard, John Magaro, Ben Chaplin, Leonie Benesch, Zinedine Soualem.
