Pisque Duas Vezes se impõe mais pela ideia do que pela experiência. É um filme claramente consciente do seu discurso, bem construído tecnicamente e seguro na forma, mas que mantém o espectador a uma certa distância emocional. Há curiosidade, há interesse intelectual, porém falta aquele incômodo persistente que o suspense psicológico costuma buscar. O resultado é um exercício de estilo correto, que funciona melhor como vitrine de direção do que como narrativa envolvente.

A estreia de Zoë Kravitz atrás das câmeras se justifica e merece reconhecimento. Existe controle de tom, atenção à estética e uma compreensão clara do tipo de alegoria social que o filme quer construir. Ainda assim, a sensação é de um projeto que flerta com o inflado. Narrativamente, Pisque Duas Vezes soa como um remix de thrillers sociais recentes, reorganizando temas já bastante explorados. Para quem não é particularmente afeito ao gênero, isso pesa.

O roteiro sustenta bem o mistério durante boa parte do tempo. As pistas são plantadas com cuidado, a atmosfera de estranhamento cresce de forma orgânica e o jogo de aparências funciona. O problema surge na virada. Quando chega a hora de revelar o que está por trás daquele microcosmo de poder e abuso, o filme explica demais. A resolução soa conveniente, quase didática, enfraquecendo a força do subtexto ao tentar garantir que a mensagem seja compreendida sem margem para ambiguidade.

O tom é outro ponto de oscilação. O filme transita entre um suspense psicológico sério e uma sátira social ácida, mas nem sempre consegue equilibrar essas duas intenções. Em alguns momentos, essa indefinição cria ruído: o desconforto perde força porque não fica claro se a cena quer inquietar ou ironizar. Para quem já observa o gênero com certa reserva, essa instabilidade impede que o impacto seja pleno.

As atuações são seguras e funcionais. Channing Tatum constrói bem a ambiguidade do bilionário carismático, sustentando a tensão entre charme e ameaça. Naomi Ackie carrega o protagonismo com dignidade e presença, ainda que sua personagem seja escrita de forma mais reativa do que complexa. O elenco cumpre o que o filme pede, mas nenhuma performance é forte o suficiente para elevar a experiência para além do conceito.

Na direção, Kravitz demonstra controle, mas ainda parece dependente da ideia central. A encenação é correta, o uso do espaço da ilha é eficiente e o olhar visual é consistente, porém falta uma assinatura mais ousada, algo que transforme o conceito em linguagem própria. O ritmo sofre especialmente no segundo ato: a construção lenta da tensão, que para fãs do gênero pode ser eficaz, aqui soa como arrasto, atrasando a chegada ao ponto de maior interesse dramático.

Tecnicamente, o filme é o seu aspecto mais sólido. A fotografia colorida em contraste com o tema pesado é bonita e funcional, reforçando a sensação de artificialidade daquele paraíso. O som e a montagem ajudam a criar desconforto, mas tudo funciona mais como um belo embrulho do que como motor emocional.

Pisque Duas Vezes funciona muito bem para fãs de thrillers psicológicos e alegorias sociais. Para o público geral — ou para quem não se conecta com o gênero —, é um filme competente, interessante, mas que dificilmente permanece na memória.

Nota 3/5

Pisque Duas Vezes (Blink Twice);

Data de Estreia no Brasil: 22 de agosto de 2024

Diretora: Zoë Kravitz

Elenco: Naomi Ackie, Channing Tatum, Alia Shawkat, Simon Rex, Christian Slater.