
Se você espera que o indicado do Brasil ao Oscar 2026 seja um filme fácil de digerir, O Agente Secreto não é para você. O novo longa de Kleber Mendonça Filho é uma daquelas obras que te acompanham para fora da sala de cinema, exigindo que você continue “assistindo” ao filme na sua cabeça horas depois dos créditos subirem. É uma experiência visualmente deslumbrante e tecnicamente impecável, mas que tropeça em suas próprias ambições narrativas na reta final.
A trama nos leva a um Recife de 1970, onde conhecemos Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário focado em sua pesquisa sobre baterias de lítio. Sua recusa em vender o projeto para interesses escusos — representados por figuras ligadas à ditadura e ao capital estrangeiro — o coloca em uma rota de fuga e paranoia.
Tecnicamente, o filme é um primor. A direção de arte e os figurinos operam um milagre de imersão, transformando a Recife atual na cidade da década de 70 com uma naturalidade impressionante. Não é apenas “roupa de época”; é uma atmosfera palpável, apoiada por veículos e locações reais que dão peso à história. Mas o destaque técnico vai para o som. Sabendo que Kleber enviou cartas aos exibidores com instruções precisas de regulagem, nota-se o resultado: o desenho de som é meticuloso, criando uma tensão que muitas vezes o próprio roteiro deixa de entregar.
No centro de tudo está Wagner Moura. Vencedor em Cannes, ele entrega uma performance sólida, interpretando tanto o Marcelo de 70 quanto seu filho no presente. É um trabalho de sutilezas, onde as nuances falam mais alto que os gritos. No entanto, sendo sincero: não é o maior papel de sua carreira. Quem viu a visceralidade dele em Tropa de Elite ou Narcos pode sentir falta de uma certa energia, embora a proposta aqui seja, de fato, mais contida.
Onde O Agente Secreto divide opiniões — e me incluo nisso — é na sua “confusão” narrativa e cultural. O filme é uma mistura ousada de thriller político, drama familiar e lendas urbanas locais. Para quem é do Norte e Nordeste, essa salada de referências e folclore deve bater diferente. Para nós, do Sudeste (e provavelmente para o público internacional), essa camada extra pode soar mais como um ruído confuso do que como complexidade, criando um distanciamento emocional em momentos chave.
E isso nos leva ao desfecho. O terço final do filme aposta em uma resolução anticlimática que pode frustrar quem esperava uma catarse. A escolha de resolver o destino do protagonista através de recursos expositivos — quase como um recorte de jornal — soou apressada, tirando o peso dramático que a perseguição construiu. Há uma mensagem cínica ali, sugerida pela postura do filho no presente: a de que a luta obsessiva pelo passado (do pai) acaba sendo esquecida ou irrelevante para o futuro. É uma ideia poderosa, mas executada de forma um tanto “fria”.
O Agente Secreto é cinema brasileiro de alto nível, cheio de cor, som e fúria contida. É um filme nota 8, que só não chega ao 10 porque, na tentativa de abraçar tantos gêneros e mistérios, acaba deixando o espectador mais perdido do que intrigado em sua conclusão.
Nota: 4/5
Agente Secreto
Data de Estreia no Brasil: 06/11/2025
Diretor: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Udo Kier, Gabriel Leone, entre outros
