Megalopolis é uma mistura desconfortável de fascínio intelectual e confusão. Não é um filme que se mede por parâmetros tradicionais de “funciona” ou “não funciona”. O impacto vem do fato de presenciar algo único, um evento cinematográfico que se impõe pela ambição e pela estranheza. Há respeito pela coragem envolvida, mas também um cansaço claro, fruto de tentar organizar um turbilhão de ideias que raramente se conectam de forma emocional.
A existência do filme se justifica como testamento artístico legítimo. Francis Ford Coppola não faz concessões, não presta contas e não busca agradar. Megalopolis só existe porque ele podia fazê-lo e talvez porque sentisse que precisava. É cinema como monumento à liberdade criativa absoluta, ainda que esse monumento seja irregular, torto e, por vezes, difícil de defender.
O roteiro assume abertamente a forma de manifesto fragmentado. Não há aqui uma narrativa convencional a ser seguida, mas uma colagem de conceitos, discursos políticos, citações latinas e ideias sobre poder, tempo e civilização. A ideia central até se sustenta, mas o envolvimento emocional é praticamente inexistente. Assiste-se ao filme como quem observa um experimento em andamento, curioso com o processo, não com o destino dos personagens.
O tom abraça o delírio operístico sem qualquer preocupação com equilíbrio. Drama político sério convive com atuações caricatas, simbolismos óbvios e imagens que beiram o absurdo. Essa falta de moderação é, paradoxalmente, a identidade do filme. Coppola não tem medo do ridículo e parece aceitá-lo como parte da experiência. O problema é que essa escolha torna Megalopolis mais admirável do que prazeroso.
As atuações amplificam essa estranheza. Adam Driver faz o possível com um protagonista que funciona mais como conceito do que como ser humano. Já Aubrey Plaza entende o jogo e se destaca ao abraçar o caos com precisão de timing. O restante do elenco oscila entre o teatral e o naturalista, muitas vezes parecendo perdido dentro da proposta.
Na direção, Coppola surge como visionário sem filtros. É excesso em estado bruto. Falta alguém para dizer “não”, e isso resulta em uma obra que transborda ideias — algumas brilhantes, outras datadas, outras simplesmente confusas. O ritmo sofre com essa densidade: cada cena quer ser um grande momento, e a sucessão desses “eventos” esgota o espectador.
Visualmente, a artificialidade é proposital. O CGI oscila entre o deslumbrante e o brega, reforçando a sensação de fábula ambientada numa “Nova Roma” claramente construída em estúdio. Esse distanciamento estético afasta a emoção, mas consolida a experiência como algo quase acadêmico.
Megalopolis não é feito para agradar. É um filme para cinéfilos, estudiosos e curiosos pela história do cinema. Um documento histórico mais do que uma obra acessível. Imperfeito, cansativo e fascinante — exatamente como seu criador parece ter querido.
Nota 3/5
Megalopolis (Megalopolis)
Data de Estreia no Brasil: 31 de outubro de 2024
Diretor: Francis Ford Coppola
Elenco: Adam Driver, Aubrey Plaza, Giancarlo Esposito, Nathalie Emmanuel, Shia LaBeouf.
