A impressão inicial de Argylle: O Superespião até flerta com diversão. O filme começa leve, colorido, prometendo uma brincadeira espirituosa com o gênero de espionagem. O problema é que essa promessa se dissolve rapidamente. O que sobra ao final não é empolgação, mas frustração e cansaço. A sensação é de ter assistido a algo que fala demais, se explica demais e se reinventa tanto que perde completamente o prazer do jogo.
A existência do projeto soa artificial desde o princípio. Tudo aqui parece desenhado por algoritmo: elenco estrelado, marketing agressivo, mistério fabricado e a clara intenção de parir uma nova franquia. Não há urgência criativa, nem uma ideia que justifique o espetáculo além do próprio espetáculo. É cinema concebido como produto, não como necessidade narrativa.
O roteiro é o maior sabotador da experiência. Em vez de confiar na simplicidade da premissa, o filme se afoga em reviravoltas sucessivas, como se cada uma precisasse ser mais esperta que a anterior. O resultado é o oposto do pretendido: quando tudo pode mudar a qualquer instante, nada tem peso. Os riscos desaparecem, os conflitos perdem valor e, lá pela metade, o espectador já não se importa mais com o que é real, imaginado ou manipulado.
O tom também nunca se resolve. Matthew Vaughn parece dividido entre uma sátira autoconsciente e uma comédia de ação cartunesca voltada ao público mais amplo. Essa indecisão empurra o filme para um território infantilizado, especialmente nas cenas de ação que pediriam algum grau de tensão. A piada constante corrói qualquer possibilidade de impacto.
O elenco reflete bem essa confusão. Bryce Dallas Howard e Sam Rockwell têm química e tentam sustentar a narrativa, mas estão cercados por participações que funcionam mais como chamariz do que como personagens. Henry Cavill, Dua Lipa e John Cena entram e saem sem deixar marca, reforçando a sensação de desperdício.
Na direção, Matthew Vaughn parece prisioneiro da própria fórmula. Os cacoetes visuais de Kingsman retornam sem frescor, agora mais como repetição do que estilo. O ritmo sofre com 2h19 excessivas, especialmente no terceiro ato, onde o filme insiste em se prolongar quando já disse tudo — várias vezes.
Tecnicamente, há ideias interessantes, como a sequência do “patins de óleo”, mas a execução visual compromete. O CGI excessivo, instável e artificial — com destaque negativo para o gato — quebra a imersão e evidencia o artificialismo da proposta.
Argylle funciona apenas como entretenimento descartável. Um filme que confunde excesso com criatividade e termina provando que nem todo truque sustenta um espetáculo inteiro.
Nota 2/5
Argylle: O Superespião (Argylle)
Data de Estreia no Brasil: 1º de fevereiro de 2024
Direção: Matthew Vaughn
Elenco: Bryce Dallas Howard, Sam Rockwell, Henry Cavill, Dua Lipa, John Cena
