Ainda Estou Aqui é, para mim, mais que um filme. É um testemunho. É um daqueles trabalhos que mostram exatamente por que o cinema brasileiro merece ser levado a sério no mundo. Muito se fala da importância de ter uma boa campanha para chegar ao Oscar, e aqui o mérito é total da parceria com a Sony. Não adianta só ter um bom filme. Precisa ter estrutura, equipe de divulgação, distribuição estratégica. E esse é o exemplo que o Brasil precisava. É a melhor campanha internacional que já fizemos.
Mas campanha não sustenta filme. E o ponto é que esse aqui sustenta. E sustenta muito.
A direção do Walter Salles é perfeita. Ele já tinha entregado o ápice da carreira em Central do Brasil, mas Agora ele alcança um novo patamar. A sensibilidade que ele traz aqui é assustadora de tão precisa. Um diretor que sabe exatamente onde colocar a câmera, quando se aproximar, quando se afastar, quando deixar o silêncio trabalhar. Nada é gratuito. Nada é exagerado. É cinema maduro, consciente, humano.
A maquiagem é impecável e poderia facilmente ser o destaque técnico do filme, mas teve algo que me chamou ainda mais atenção: a edição. E falo isso com segurança porque raramente a montagem é usada de forma tão narrativa quanto aqui. Os cortes bruscos, que surgem nos momentos mais sensíveis, quase me tiraram do filme… até que percebi. Eles são a linguagem. Eles são o aviso. Eles representam a ruptura. O esfacelamento. A violência que não precisa ser mostrada, porque ela se expressa na própria estrutura do filme.
Quando Rubens Paiva é levado, a partir desse momento a edição muda completamente. Os cortes bruscos desaparecem porque o corte principal — o corte emocional, o corte familiar, o corte histórico — já aconteceu. A montagem é um luto silencioso. É brilhante. É um dos melhores trabalhos de edição que vi em anos, e merecia todos os prêmios possíveis.
E aí vem a Fernanda Torres. O que ela faz aqui é gigantesco. Uma atuação que emociona porque é verdadeira, crua, humana. Ela não precisa levantar a voz para entregar força. Ela não precisa forçar lágrimas para transmitir dor. A emoção dela simplesmente acontece. É impossível não sentir junto. Cada gesto dela é uma ferida aberta. Cada silêncio, uma história inteira. Se existe justiça no cinema, esse papel entra para a história da carreira dela.
Ainda Estou Aqui emociona. E emociona porque é honesto, sensível e respeitoso com uma história dura. O filme poderia simplesmente ser um retrato político, ou um drama familiar, ou uma denúncia histórica. Ele é tudo isso, mas de um jeito que só o melhor cinema consegue ser. É um filme completo, que entende sua responsabilidade e faz jus ao que está contando.
Nota: 5/5
Ainda Estou Aqui
Data de Estreia: 7 de Novembro de 2024
Direção: Walter Salles
Elenco: Fernanda Torres, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Antonio Saboia
