A Substância é aquele tipo de filme que começa muito bem, com temas extremamente fortes e atuais, e parecia que ia ser um dos grandes destaques entre os indicados ao Oscar 2025. A história faz uma crítica pesada à obsessão pela beleza, ao culto da juventude e, principalmente, à forma como a indústria do entretenimento descarta mulheres que passaram de uma certa idade. Essas mensagens são o grande coração do filme e realmente funcionam. São poderosas e necessárias.

As atuações seguram tudo com muita força. Demi Moore está expansiva, intensa, completamente entregue ao papel. É uma daquelas performances que chamam atenção naturalmente. Já a Margaret Qualley vem com uma atuação diferente, mais contida e precisa, que acaba complementando a da Demi Moore. As duas juntas são o maior trunfo desse filme. As indicações foram merecidas. Mesmo que só uma tenha entrado oficialmente, dava tranquilamente para as duas concorrerem a Melhor Atriz.

O filme é para maiores de idade e não esconde isso em momento nenhum. Usa o gore, o horror corporal, a violência visual. No começo, esse aspecto funciona, porque faz sentido dentro da crítica que o filme está construindo. É um terror mais impactante do que assustador, quase um alerta visual. A estética exagerada, inclusive, é um dos grandes diferenciais do longa. O visual funciona muito bem como linguagem, mistura glamour com grotesco de uma forma que deixa a experiência incômoda, mas interessante.

O problema começa quando chegamos na meia hora final. É aí que o filme perde completamente a mão. Tudo vira extremo demais. O gore vira exagero puro. O terror que antes funcionava como comentário social se transforma num espetáculo de excesso, pro lado errado. É como se o filme estivesse tão desesperado para se afirmar como “terror” que acabou distorcendo a própria mensagem. Essa escolha me tirou do filme. Parecia que eu estava vendo outra obra, sem a mesma identidade do início.

E é isso que faz A Substância perder pontos. A ideia é muito boa, as atuações são excelentes, o visual é marcante, mas a execução do final é tão exagerada que enfraquece tudo que vinha funcionando antes. É um daqueles casos em que o filme merecia estar indicado a Melhor Filme pelo começo e meio, mas não pelo conjunto total. No fim das contas, apesar de ter qualidades reais, fica bem abaixo de outros longas de terror que já mereciam ter sido reconhecidos no Oscar — e aí entra minha crítica: se esse filme ganhasse Melhor Filme, seria quase uma afronta ao que clássicos do gênero construíram no passado.

A Substância tinha tudo para ser um dos grandes. Não chega lá.

Nota: 3/5

A Substância (The Substance)
Data de Estreia no Brasil: 19 de setembro de 2024
Direção: Coralie Fargeat
Elenco: Demi Moore, Margaret Qualley, Dennis Quaid