Um Lugar Silencioso: Dia Um deixa uma sensação clara de filme “menor”. Ao final, fica a impressão de ter acompanhado uma boa história paralela, correta e pontualmente emocionante, mas distante da força simbólica e épica construída pela família Abbott. Funciona enquanto está em cena, cria empatia e tensão em momentos específicos, mas não desperta aquela urgência de revisita nem a sensação de evento cinematográfico.

A existência do filme soa mais estratégica do que essencial. Um Lugar Silencioso: Dia Um amplia o universo ao mostrar o colapso inicial sob a ótica de pessoas comuns, mas não acrescenta nada decisivo à mitologia da franquia. O longa parece cumprir o papel de manter a marca viva enquanto o próximo capítulo principal não chega. Ele colore o mundo, mas não o redefine.

O roteiro encontra um bom ponto de partida ao acompanhar personagens sem preparo, sem laços heroicos e sem plano algum. Dramaticamente, a escolha funciona, especialmente ao incorporar a doença da protagonista como camada emocional. O problema é estrutural. A narrativa rapidamente se apoia em situações já conhecidas da franquia. O medo do barulho, a corrida contra o silêncio e as fugas por centímetros de erro retornam quase sem variação. A história avança, mas raramente surpreende.

O tom evidencia a principal mudança. Aqui, o terror cede espaço ao drama humano. A angústia existencial pesa mais que o susto. Para quem busca horror puro, a experiência pode soar branda. Para quem se conecta com histórias de perda, finitude e afeto, o filme encontra mais força. Essa indefinição impede que Dia Um atinja seu potencial máximo em qualquer uma das duas frentes.

Nas atuações, o filme se sustenta graças a Lupita Nyong’o. Sua performance carrega o peso emocional da narrativa com sensibilidade e presença física. A relação com o gato Frodo se torna um dos elementos mais eficazes de tensão e empatia. Os demais personagens cumprem função dramática, mas permanecem rasos, existindo mais como peças de movimentação do caos do que como indivíduos plenamente desenvolvidos.

A direção de Michael Sarnoski respeita o estilo estabelecido por John Krasinski, apostando em silêncio, pausas e contenção. Há identidade no olhar mais contemplativo, mas falta ousadia. Nova York oferece um cenário naturalmente caótico, porém o filme raramente explora esse potencial de forma realmente visceral. A contenção excessiva limita o impacto.

O ritmo sofre com essa escolha. Há quedas claras de energia, principalmente nos trechos mais introspectivos. A mecânica do silêncio continua eficiente, mas já mostra sinais de desgaste. Algumas cenas passam a sensação de repetição, diminuindo a tensão progressivamente.

Tecnicamente, o filme mantém o padrão da franquia. O desenho de som segue sendo o maior trunfo, especialmente ao transformar uma cidade barulhenta em um espaço opressivo pela ausência sonora. Os efeitos das criaturas são competentes, mas já não causam o choque de novidade do primeiro longa.

No fim, Um Lugar Silencioso: Dia Um funciona melhor como drama pós apocalíptico do que como terror. Agrada fãs do universo e o público geral, mas dificilmente se tornará um capítulo indispensável da saga.

Nota 3/5

Um Lugar Silencioso: Dia Um (A Quiet Place: Day One)
Estreia no Brasil: 27 de junho de 2024
Direção: Michael Sarnoski
Elenco: Lupita Nyong’o, Joseph Quinn, Alex Wolff, Djimon Hounsou.