Coringa: Delírio a Dois não tenta reconquistar o público que abraçou Arthur Fleck no primeiro filme — pelo contrário. Desde cedo, o longa deixa claro que sua intenção é confrontar, frustrar e até punir qualquer leitura romantizada daquele personagem. O resultado é uma experiência marcada por distanciamento emocional e um vazio desconfortável, que gera admiração formal pela ousadia, mas rejeição quase imediata pela forma como essa ousadia se materializa.
Narrativamente, a continuação soa desnecessária. Coringa: Delírio a Dois funciona mais como um longo epílogo corretivo do que como expansão de universo. Em vez de aprofundar o mito do Coringa, o filme parece empenhado em reduzi-lo, insistindo em desmontar qualquer fascínio construído anteriormente. A sensação é de um diretor incomodado com a recepção do primeiro longa, decidido a reescrever a relação com o público — mesmo que isso custe a força dramática da obra.
O roteiro aposta em uma estrutura estática, concentrada quase inteiramente no julgamento e no confinamento psiquiátrico. A escolha do musical como dispositivo narrativo até faz sentido conceitual, ao representar o delírio interno de Arthur, mas na prática compromete a fluidez. Os números musicais frequentemente interrompem o pouco drama que o filme consegue construir, transformando momentos de tensão potencial em pausas estilizadas que pouco acrescentam à progressão da história.
O tom é talvez o aspecto mais problemático. O filme oscila entre drama de tribunal, tragédia romântica e musical clássico à moda da MGM, sem jamais encontrar equilíbrio. Essa mistura não gera uma nova linguagem, mas sim uma instabilidade constante. O espectador fica sem um ponto emocional de ancoragem, o que reforça a sensação de frieza e afastamento.
Nas atuações, o contraste é evidente. Joaquin Phoenix continua absolutamente comprometido, entregando mais uma performance física e emocionalmente exaustiva, que expõe a fragilidade extrema de Arthur Fleck. Já Lady Gaga é a grande promessa desperdiçada. Sua personagem existe mais como extensão do delírio do protagonista do que como força dramática autônoma, frustrando quem esperava uma Arlequina com peso real na narrativa.
Na direção, Todd Phillips deixa clara sua intenção de provocar deliberadamente. Há visão autoral, sem dúvida, mas ela soa mais como insistência conceitual do que como necessidade artística genuína. O filme parece dizer, a todo momento, que Arthur não é um ícone — é um homem quebrado —, repetindo essa tese até o esgotamento.
O ritmo sofre diretamente com essas escolhas. A repetição dos números musicais e a limitação espacial fazem o filme se arrastar, criando a sensação de uma duração maior do que a real. Visualmente, porém, o nível se mantém alto. A fotografia de Lawrence Sher é impecável, com enquadramentos e cores que isolam Arthur do mundo. Ainda assim, o virtuosismo técnico não compensa o esvaziamento dramático.
Coringa: Delírio a Dois é um filme feito para provocar cinéfilos que apreciam desconstrução e desconforto. Para o público que se conectou emocionalmente ao primeiro longa, soa como uma negação deliberada dessa experiência — corajosa, sim, mas também profundamente frustrante.
Nota 2/5
Coringa: Delírio a Dois (Joker: Folie à Deux)
Estreia no Brasil: 3 de outubro de 2024
Diretor: Todd Phillips
Elenco: Joaquin Phoenix, Lady Gaga, Brendan Gleeson, Catherine Keener, Zazie Beetz.
