Há algo paradoxal em Avatar: Fogo e Cinzas. A admiração técnica é imediata e incontornável, mas vem acompanhada de um cansaço estrutural que a franquia já não consegue esconder. James Cameron entrega mais um espetáculo visual impecável, só que a sensação dominante não é de deslumbramento total. Pandora continua impressionante, porém o encanto inaugural ficou no passado. Este terceiro capítulo soa mais como um luxuoso elo intermediário do que como um evento que se sustenta sozinho.

A existência do filme se justifica pela expansão temática que propõe. Avatar: Fogo e Cinzas acrescenta um elemento fundamental ao romper com o maniqueísmo que sempre definiu a saga. A introdução do Povo das Cinzas injeta cinismo e ambiguidade moral em Pandora, algo que faltava até aqui. Ainda assim, o risco é evidente. O filme funciona quase como preparação narrativa para o próximo capítulo, o que diminui seu impacto isolado.

O ponto mais forte do roteiro está justamente no conflito interno entre Na’vis. A decisão de colocar Pandora em guerra consigo mesma é a escolha mais interessante da saga desde o primeiro filme. A presença de Varang, interpretada por Oona Chaplin, cria uma ameaça inédita e necessária. A urgência política que surge desse embate tira a franquia do confortável eixo humanos contra natureza e a empurra para um terreno mais complexo e adulto.

O tom acompanha essa virada. Fogo e Cinzas é visivelmente mais sombrio e cruel do que seus antecessores. O título não é apenas simbólico. A destruição é concreta, o senso de perda é mais profundo e o filme não recua diante das consequências de seus conflitos. É o capítulo mais pesado da saga, aquele que finalmente abandona parte do deslumbre contemplativo em favor de um drama mais áspero.

Essa mudança também afeta os personagens. Jake e Neytiri passam para um segundo plano claro. O foco em Lo’ak funciona como uma transição de protagonismo necessária, mas quem realmente domina a tela é Varang. A vilã traz uma energia nova, perigosa e imprevisível, algo que faltava aos antagonistas anteriores. O contraste entre sua visão de mundo e os valores tradicionais de Pandora sustenta o interesse dramático.

Na direção, James Cameron continua sendo o mestre do espetáculo. As sequências de ação fazem qualquer outro blockbuster contemporâneo parecer pequeno. Ainda assim, há uma diferença perceptível em relação aos filmes anteriores. A encenação aqui é mais funcional do que deslumbrada. Cameron já domina Pandora completamente e isso se reflete em um filme menos interessado em apresentar e mais focado em conduzir.

O ritmo é onde o desgaste aparece com mais clareza. Com pouco mais de três horas, a duração começa a pesar. Diferente de O Caminho da Água, cuja contemplação tinha um efeito quase hipnótico, o clima tenso de Fogo e Cinzas torna a experiência mais exaustiva. O segundo ato sofre com barrigas políticas que poderiam ser resolvidas com mais agilidade.

Tecnicamente, o filme estabelece um novo padrão. O fogo, a lava, as cinzas e a fumaça em 3D atingem um nível de realismo inédito. O impacto visual ainda impressiona, mas o fator novidade já não provoca choque. O que resta é a admiração pela perfeição técnica, não mais o assombro do desconhecido.

Avatar: Fogo e Cinzas funciona plenamente para fãs fiéis e para o mercado global. Para os cinéfilos técnicos, é um prato cheio de inovação. Para quem busca reinvenção narrativa radical, fica a sensação de que a franquia começa a girar em torno da própria grandiosidade.

Avatar: Fogo e Cinzas (Avatar: Fire and Ash)
Estreia no Brasil: 18 de dezembro de 2025
Diretor: James Cameron
Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldaña, Sigourney Weaver, Britain Dalton, Trinity Bliss.