O Aprendiz é um incômodo calculado. Não há choque catártico nem envolvimento emocional pleno, mas uma frieza quase clínica, como se o filme operasse uma autópsia social diante do espectador. O que se vê gera repulsa, mas também convida à observação analítica, tentando entender como aquele universo de ambição desmedida se estrutura e se reproduz sem pedir empatia em troca.

A existência do filme se justifica como retrato histórico com claro tom de provocação. O Aprendiz quer investigar as raízes da lógica do “vencer a qualquer custo”, mas não esconde que a polêmica é parte do motor do projeto. Existe ali um interesse legítimo em discutir poder, influência e amoralidade, ao mesmo tempo em que o filme sabe que o personagem central carrega atenção garantida. Essa ambiguidade não invalida o resultado, mas está sempre presente.

Narrativamente, o roteiro se apoia com firmeza na relação mestre–aprendiz. O arco de transformação é claro e funcional, mas por vezes excessivamente didático. Em alguns trechos, o filme parece mais interessado em “marcar tópicos” de uma biografia reconhecível do que em aprofundar conflitos internos. Falta uma camada de mistério ou contradição psicológica que torne a jornada menos previsível e mais inquietante.

O tom mistura drama psicológico com momentos de sátira quase grotesca. Na maior parte do tempo, esse equilíbrio funciona, mas há cenas em que a caricatura de uma Nova York cínica e predatória atropela a densidade dramática. O filme sabe exatamente o que quer denunciar, porém o peso da denúncia ocasionalmente fala mais alto do que a construção dos personagens como seres complexos.

É nas atuações que O Aprendiz encontra seu maior trunfo. Sebastian Stan entrega um trabalho seguro, evitando a armadilha da imitação óbvia e apostando em gestos, posturas e silêncios. Ainda assim, quem realmente domina a cena é Jeremy Strong. Seu Roy Cohn é gélido, manipulador e profundamente desconfortável de assistir. É uma performance que sustenta o filme dramaticamente; sem ela, muito do impacto se perderia.

Na direção, Ali Abbasi imprime seu estilo visceral, mas parece, em alguns momentos, refém do próprio tema. Há controle de câmera e intenção clara, porém o desejo de chocar às vezes abafa escolhas estéticas mais sutis. O ritmo funciona bem no início, acompanhando com energia a ascensão do “aprendiz”, mas se torna repetitivo no segundo ato, quando o filme insiste nas mesmas lições de cinismo até perder parte do frescor.

Visualmente, a estética que emula a granulação e a sujeira das décadas de 70 e 80 é funcional e eficaz. Não revoluciona, mas ajuda a situar o espectador numa atmosfera de decadência moral e social que reforça o discurso. O Aprendiz não busca imparcialidade nem conforto. É um filme que provoca mais do que explica, e que vale menos pelas respostas que oferece do que pelo desconforto que insiste em deixar.

Nota 3.5/5

O Aprendiz (The Apprentice)

 Data de Estreia no Brasil: 17 de outubro de 2024

 Diretor: Ali Abbasi

Elenco: Sebastian Stan, Jeremy Strong, Maria Bakalova, Martin Donovan, Catherine McNally.