O Auto da Compadecida é um dos maiores clássicos do cinema brasileiro. É carisma puro, timing perfeito, emoção, humor e alma. É o tipo de filme que não se repete. E justamente por isso, quando anunciaram a continuação, eu fiquei curioso, mas também receoso. Infelizmente, o que aconteceu foi exatamente o medo que eu tinha.

O Auto da Compadecida 2 tenta emular o original a todo custo, mas não consegue. A nostalgia até funciona nos primeiros minutos, porque ver Selton Mello e Matheus Nachtergaele juntos sempre traz um sorriso. Eles ainda têm química, isso ninguém tira. Só que o problema é que nada ao redor deles sustenta essa química. Tudo parece corrido, apressado, como se a produção estivesse desesperada para aproveitar a marca, mas sem ter a mesma inspiração.

Os cenários são artificiais e escuros, algo que já te afasta logo de cara. E quando eu digo artificiais, não é estético, é pobre mesmo. Em vários momentos dá para perceber redublagem mal encaixada, como se tivessem feito remendos na pós-produção. Isso tira você do filme o tempo todo.

O humor não funciona. Não ri. Nem sorri. Os novos personagens são forçados ao extremo, caricaturas sem graça, tentando repetir arquétipos do primeiro filme, mas sem nenhum frescor. A emoção também não aparece. E quando aparece, é forçada. Aquela emoção “vai, chora aí” que não engana ninguém.

Outro problema enorme está na direção. Ter dois diretores aqui foi um erro brutal. Como você mesmo disse, Franco, é como quatro mãos segurando um volante, cada uma puxando para um lado. O filme muda de tom o tempo inteiro. Em uma cena, o personagem fala de maneira natural; na seguinte, parece que entrou numa novela teatral dos anos 90. Isso quebra qualquer ritmo.

Matheus Nachtergaele até brilha quando interpreta o Diabo e Jesus. Ele é grande, sempre foi. Mas nem isso segura o filme. E sobre a Compadecida, funciona, mas é claramente uma emoção empurrada, sem a naturalidade do primeiro filme. A transição existe, mas não tem a mesma força simbólica.

Comecei gostando pela nostalgia, mas nostalgia não segura um longa inteiro. Depois de dez minutos, o encanto vira frustração. E essa frustração acompanha até o final.

O Auto da Compadecida 2 não é um desastre completo, mas está muito, muito longe de alcançar o patamar do original. Talvez porque alguns clássicos simplesmente não pedem continuação. E esse era um deles.

Nota: 2,5/5

O Auto da Compadecida 2
Data de Lançamento no Brasil: 25 de Dezembro de 2024
Direção: Guel Arraes, Flávia Lacerda
Elenco: Matheus Nachtergaele, Selton Mello, Virgínia Cavendish, Fabíula Nascimento, Taís Araújo, Luís Miranda, Eduardo Sterblitch, Humberto Martins, Enrique Díaz